domingo, 12 de junho de 2016

São José: O único homem à altura de Jesus e Maria

Eleita pela Santíssima Trindade para ser a Mãe Admirável do Verbo Encarnado, Nossa Senhora é a mais perfeita de todas as meras criaturas. Mesmo se considerássemos, num só conjunto, as excelências dos Anjos, dos Santos e dos homens que existiram, existem e existirão até o fim do mundo, não teríamos sequer uma pálida ideia das celestes perfeições de Maria, que reluziram aos olhos de Deus desde o primeiro instante de sua Imaculada Conceição.
Para cumprir os eternos desígnios da Divina Providência no tocante à Redenção da humanidade, foi preciso que, em determinado momento, essa criatura excelsa contraísse legítimo matrimônio. Assim poderia Ela, sem detrimento de sua reputação, conceber miraculosamente e dar à luz o Filho do Altíssimo.
Ora, entre esposo e esposa deve haver certa proporcionalidade: não pode um ser por demais superior ao outro. Era necessário, portanto, surgir um homem que, por seu amor a Deus, por sua justiça, pureza, sabedoria, enfim, por todas as suas qualidades, estivesse à altura daquela augusta Esposa.
Mais ainda. É também conveniente que o pai seja proporcionado ao filho. Por isso, era preciso que esse mesmo varão, com toda a dignidade, arcasse com a honra de ser o pai adotivo do Verbo feito carne.
E houve um único homem criado para essa sublime missão, um homem cuja alma recebeu do Pai Eterno todos os adornos e predicados que o colocassem inteiramente à altura de seu chamado. Esse homem, entre todos escolhido por estar na proporção de Nossa Senhora e de Nosso Senhor Jesus Cristo, foi São José.
A ele coube essa glória, esse píncaro inimaginável de ser esposo da Virgem-Mãe e pai legal do Menino Jesus. Como legítimo consorte de Nossa Senhora, possuía São José plenos direitos sobre o Fruto das imaculadas entranhas d’Ela, embora este Fruto houvesse sido engendrado pelo Espírito Santo. Quer dizer, sem contar a própria maternidade divina, não se pode conceber vocação mais extraordinária! É uma grandeza inconcebível.
Pensemos, por exemplo, nos momentos em que São José trouxe em seus braços o Menino Jesus, ou naqueles em que ele O viu praticar os atos da vida comum na santa casa de Nazaré, ou ainda nas horas em que O contemplou imerso nos colóquios com o Padre Eterno... Consideremos quão puros deviam ser seus lábios, e quão insondável a sua humildade para conversar com o Divino Infante, responder às perguntas d’Ele ou Lhe dar um conselho, quando solicitado. Um simples ser humano, formado e plasmado pelas mãos do Criador, ensinando a Deus!
Pensemos, ainda, no trato repassado de elevação e respeito entre São José e Nossa Senhora, quando Ela se ajoelhava diante dele para o servir. Ele vê aquela Criatura, que é o Céu dos Céus, inclinada à sua frente, e aceita seus préstimos. Como se tal não bastasse, a Esposa também se aconselha com ele, troca opiniões e acata suas ordens.

Numa palavra, ele era o homem que tinha bastante sabedoria e pureza para governar a Deus e a Virgem Maria. Então se compreende quão inimaginável é a grandeza de São José!
Continua.

sexta-feira, 18 de março de 2016

Modelo de cavaleiro

Um dos episódios mais bonitos da vida de São José é a fuga para o Egito.
O Santo Patriarca recebe em sonho a visita de um Anjo que lhe diz que o Rei Herodes está querendo matar o Menino Jesus. Então ele sai às escondidas, com Nossa Senhora e seu Divino Filho, e vão para o Egito.
A defesa do maior tesouro que houve na Terra — e tesouro maior do que esse não há no Céu — ficou inteiramente confiada a São José, que representava o braço vigoroso, a previdência, a força varonil na defesa de um Menino que era ao mesmo tempo Deus, mas quis ser fraco nas mãos de São José.
Nós louvamos e apreciamos muito a vocação de Godofredo de Bouillon, que comandou as tropas na reconquista de Jerusalém. É o cruzado por excelência, é uma coisa linda!
Entretanto, muito mais do que retomar o Santo Sepulcro para Nosso Senhor é defender a Ele próprio! E disto São José foi encarregado bela e gloriosamente. Ele foi, portanto, o cavaleiro-modelo na defesa do Rei dos reis, do Filho de Deus encarnado.

Plinio Correa de Oliveira - Extraído de conferência de 30/7/1989

quinta-feira, 19 de março de 2015

São José

Ouça a homilia de Mons João Clá Dias, fundador dos Arautos do Evangelho, sobre São José, o pai adotivo do Menino Jesus.

domingo, 16 de março de 2014

FESTA DE SÃO JOSÉ —19 DE MARÇO

CONCLUSÃO DOS COMENTÁRIOS AO EVANGELHO SOLENIDADE DE SÃO JOSÉ —19 DE MARÇO 
Em corpo e alma na glória do Céu
São Francisco de Sales sustenta a tese. de que quando Cristo ressuscitou, São José também recuperou seu corpo para entrar no Paraíso junto com as almas de todos os justos que nesse momento foram libertadas do Limbo e alcançaram a visão beatífica. “E se é verdade, o que devemos acreditar, que em virtude do Santíssimo Sacramento que recebemos nossos corpos ressuscitarão no dia do Juízo, como poderíamos duvidar que Nosso Senhor tenha feito subir ao Céu, em corpo e alma, o glorioso São José que teve a honra e a graça de levá-Lo em seus benditos braços, nos quais Nosso Senhor tanto secomprazia?”13
Em favor disso argumentam ainda outros santos e doutores,14 apoiando-se na estreita intimidade que uniu a Sagrada Família aqui na Terra. Se Jesus e Maria subiram em corpo glorioso ao Céu, não é compreensível que não esteja lá também São José, pois o próprio Nosso Senhor afirmou: “Não separe o homem o que Deus uniu” (Mt 19, 6; Mc 10, 9). Por conseguinte, segundo uma forte corrente teológica, dado que esta união é querida por Deus, há três pessoas em corpo e alma na bem-aventurança eterna, antes mesmo da ressurreição final no último dia: Nosso Senhor Jesus Cristo, Nossa Senhora e São José.
Ao considerarmos, admirados, a figura de São José e a elevação inimaginável de sua vocação — a ponto de ser impossível cogitar outra mais alta —, vemos que ele está tão acima da nossa condição que o julgamos na mesma proporção de Maria. Cabe, pois, perguntar: acaso foi ele concebido sem pecado original? Até hoje o Magistério da Igreja não afirmou o contrário de ma neira definitiva, razão pela qual podem ser feitas considerações teológicas favoráveis a tal hipótese.
ACORRAMOS A SÃO JOSÉ!
Ante os horizontes grandiosos que a contemplação amorosa da figura de São José nos descortina, podemos centrar agora nossa atenção em sua missão de Patriarca da Igreja e protetor de toda a ação dela. Qual é essa ação? Distribuir as graças como administradora dos Sacramentos, que tornam efetivo o desígnio de salvação de Cristo. A Igreja, no seu nascedouro, reduzia-se a Jesus e a Maria, que obedeciam a São José como Patriarca e chefe da Sagrada Família. Essa relação entre Filho e pai se mantém na eternidade, de modo que Nosso Senhor atende com particular benevolência aos pedidos feitos por São José.
Em nossos dias encontramo-nos em uma situação de decadência moral terrível, talvez pior do que aquela na qual viviamos homens quando Nosso Senhor Jesus Cristo. Se encarnou e São José recebeu as primIcias da Igreja em suas mãos, O mundo inteiro está imerso no neopaganismo; os crimes e abominações que se cometem hoje são, às vezes, piores que os da Antiguidade. Mas tal como nos seus primórdios a Igreja propagou a Boa-nova do Evangelho e deu início a uma era de graças purificadoras e santificadoras da sociedade, também podemos ter a certeza firme e inabalável de que eia triunfará sobre o mal em nossos dias. Por isso, a Solenidade de São José é o dia especialíssimo para abrir nossos corações à devoção a este tão grande Santo, na certeza de sermos bem conduzidos, bem tratados e bem amparados. E valendo-nos de seu poderoso auxílio, devemos pedir-lhe, enquanto Patriarca da Igreja, que intervenha nos acontecimentos, obtendo de Jesus a renovação da face da Terra.
1) Cf. ALASTRUEY, Gregorio. Tratado de la Virgen Santísima. 4.ed. Madrid: BAC,1956, p.841.
2) Cf. SAO TOMAS DE AQUINO. Suma Teológica. I, q.50, a.1, ad 1. 4
3) Cf. CLA DIAS, EP, João Scognamigijo. Dois silêncios que mudaram a História. In: Arautos do Evangelho. São Paulo. N.108 (Dez., 2010); p.10-17;
4) AUTOR INCERTO. Opus impetfectum in Matthæum. Hom.I, c.1: MG 56, 633.
5) Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. In IV Sent. D.30, q.2, a.2, ad 5.
6) DE ISOLANO, OP, Isidoro. Suma de los dones de San José. II, c.11. In: LLAMERA, OP, Bonifacio Teología de San José. Madrid: BAC, 1953, p.484-485.
7) Cf. SAO TOMAS DE AQUINO. Suma Teológica. III, q.31, a.2.
8) TUYA, OP, Manuel de; SALGUERO, OP, José. Introducción a la Biblia. Madrid: BAC, 1967, vIl, p.316.
9) SÃO FRANCISCO DE SALES. Entretien XIX. Sur les vertus de Saint Joseph. In: OEuvres Complètes. Opuscules de spiritualité Entretiens spirituels. 2.ed. Paris: Louis Vivès, 1862, t.III, p.54 1.
10) Cf. LLAMERA, op. cit., p.129-139.
11) SAO TOMAS DE AQUINO. Suma Teológica. III, q.27, a.4.
12) SOLENIDADE DE SÃO JOSÉ. Oração do Dia. In: MISSAL ROMANO. Trad. Portuguesa da 2a. edição típica para o Brasil realizada e publicada pela CNBB com acréscimos aprovados pela Sé Apostólica. 9.ed. São Paulo: Paulus, 2004, p.563.
13) SÃO FRANCISCO DE SALES, op. cit., p.546.
14) Cf. SAO BERNARDINO DE SENA. Sermones de Sanctis. De Sancto Joseph Sponso Beatæ Virginis. Sermo I, a.3. In: Sermones Eximü. Veneza: Andreæ Poletti, 1745, t.IV, p.235; DE ISOLANO, op. cit., IV, c.3, p.629-630.


sábado, 15 de março de 2014

SOLENIDADE DE SÃO JOSÉ —19 DE MARÇO

COMENTÁRIOS AO EVANGELHO SOLENIDADE DE SÃO JOSÉ —19 DE MARÇO 
GRANDEZA DE SÃO JOSÉ À LUZ DO EVANGELHO
Nestes breves versículos torna-se patente o quanto São José é pai legal de Nosso Senhor, pois o santo Patriarca exerceu de fato esse encargo, a ponto de, no Evangelho de São Lucas, Maria mencionar José como sendo pai de Jesus, ao encontrá-Lo no Templo: “Eis que teu pai e Eu andávamos à tua procura, cheios de aflição” (Lc 2, 48).
Com efeito, o matrimônio realizado entre Nossa Senhora e São José foi inteiramente válido, segundo a Lei. E como todo casamento, por ser um contrato bilateral, dependia da anuência de ambos. E também uma verdade admitida por todos os Padres e teólogos que tanto Maria como José estiveram vinculados a um voto de virgindade. Decerto, Ela lhe terá comunicado esse propósito que fizera e ele o aceitou, pois também terá feito o mesmo voto, pelo que os dois concordaram em mantê-lo dentro do matrimônio. Portanto, Ela foi Virgem com o conhecimento e o consentimento de seu esposo, ficando ligados de livre e espontânea vontade a esse compromisso.
Como sabemos, segundo a Lei antiga o varão tornava-se dono de sua esposa, de modo que “a mulher israelita costumava chamar seu marido com os termos ba’al — ‘amo’ e ‘adôn — ‘senhor’, como faziam os escravos com seu dono e o súdito com seu rei”.8 A partir do momento em que ambos se uniram, SãoJosé tornou-se senhor de Maria e, em consequência, senhor de todo o fruto d’Ela. São Francisco de Sales explica esta situação por meio de uma bela alegoria: “Se uma pomba [...] leva em seu bico uma tâmara e a deixa cair num jardim, não diríamos que a palmeira que vier a nascer pertence àquele de quem é o jardim? Ora, se isto é assim, quem poderá duvidar que o Espírito Santo, tendo deixado cair essa divina tâmara, como uma divina pomba, no jardim encerrado e fechado da Santíssima Virgem (jardim selado e rodeado por todos os lados pelas cercas do santo voto de virgindade e castidade toda imaculada), a qual pertencia ao glorioso São José, como a mulher ou esposa pertence ao esposo, quem duvidará, digo, ou quem poderá dizer que essa divina palmeira, cujos frutos alimentam para a imortalidade, não pertence ao grande São José?”.9
Para a Encarnação era indispensável Nossa Senhora conceber dentro das aparências de um casamento humano, a fim de não criar uma situação incompreensível, que dificultasse a missão do Messias. Logo, a gestação de Jesus no seio de Maria Santíssima tinha em José o selo da legalidade, de forma a garantir que o Menino viesse ao mundo em condições de normalidade familiar, a fim de operar a Redenção da humanidade.
O “fiat” de São José
Esta prerrogativa de São José, da paternidade legal do Menino, brilha ainda com maior fulgor quando constatamos que, sendo seu o fruto de Maria, ele poderia ter recusado o convite do Anjo no sonho, mas não o fez. Desse modo, paralelamente ao “Fiat!” de Nossa Senhora em resposta a São Gabriel no momento da Anunciação, também ele pronunciou outro fiat sublime, ao aceitar, pela fé, ser pai adotivo de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Uma vez que ele consentiu em manter o estado de virgindade e aceitou o mistério da concepção do Menino Jesus em Maria, São José deve ser considerado, ademais, pai virginal do Redentor, pois teve uma grande ligação com a Encarnação, embora extrínseca. Ele foi necessário para que houvesse a união hipostática, e foi vontade de Deus que também participasse desta ordem hipostática, de forma extrínseca, moral e mediata.10
Um esposo à altura de Nossa Senhora
Feitas essas considerações, lembremo-nos de outro princípio enunciado por São Tomás de Aquino: “Aqueles que foram eleitos por Deus para alguma coisa, Ele os prepara e dispõe de modo que sejam idôneos para desempenhar a missão”.11 De fato, desde toda a eternidade, São José esteve na mente de Deus com a vocação de ser chefe da Sagrada Família e para tal foi criado. Como diz a Oração do Dia da Santa Missa desta Solenidade, a ele foram confiadas “as primIcias da Igreja”.12 E teve sob sua custódia estas primIcias, que foram o Menino Jesus e Nossa Senhora. Devemos concluir, então, que São José recebeu graças específicas para estar à altura de sua missão de esposo e guardião de Maria Santíssima, bem como de pai legal e atribuído de Jesus Cristo, ou seja, pai de Deus.
Modelo de humildade
Entretanto, o que transparece acerca da personalidade de São José nos Evangelhos? Não consta que fosse falador, espalhafatoso ou demasiado comunicativo. Pelo contrário, à semelhança de Maria, José destacava-se pela seriedade, recato e despretensão. Certamente seguia uma rotina com horas marcadas para todos os seus deveres e uma aplicação ao trabalho notável pela constância.
Eis um exemplo do quanto Deus ama essas virtudes e escolhe para as grandes missões os que as praticam. Para conviver com Jesus e proteger todo o ambiente no qual Ele habitaria, a fim de realizar a mais alta obra de toda a História da criação, a Providência preferiu dois, uma dama e um varão, que fossem recolhidos, apagados e humildes...
São José, patrono da confiança e da boa morte
São José é também um impressionante modelo da virtude da confiança. Ele aceitou todas as incertezas que sua missão acarretava — como constatamos, por exemplo, no episódio da fuga para o Egito (cf. Mt 2, 14) —, pois é de se supor que, com relação ao atendimento das necessidades materiais e concretas da vida, a Providência não interviesse de forma direta, e deixasse essa responsabilidade aos cuidados dele. Portanto, era ele que tinha de garantir o sustento da Sagrada Família. A ele se aplica, de maneira especial, a belíssima frase empregada mais tarde por Nosso Senhor para indicar a razão do prêmio a ser dado aos justos, no fim do mundo: “tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era peregrino e me acolhestes; nu e me vestistes” (Mt 25, 35-36).
Do mesmo modo que Nossa Senhora recebeu a revelação dos padecimentos que o Salvador deveria sofrer na Terra para operar a Redenção, sem dúvida, também São José teve noção do que ia acontecer e assumiu todos os dramas e dores de Jesus e de Maria. Inflamado de amor por Jesus, seu grande desejo era de continuar neste mundo para proteger sua esposa virginal em todas as circunstâncias. Deus, porém, resolveu levá-lo antes de Jesus iniciar sua vida pública. Quiçá porque ele não toleraria presenciar todas as perseguições e tormentos da Paixão, e, enquanto varão, teria de manifestar seu desacordo com o plano da morte de Cristo e tomar a defesa d’Ele. Faria isso com tal ímpeto de zelo que talvez impossibilitasse que a Paixão chegasse a seu termo.

Ao abandonar esta vida, São José morreu nos braços de seu Divino Filho. Seus olhos apagaram-se para a contemplação de Deus-Homem no tempo e, abrindo-se para a eternidade, viram Jesus sorridente, que o deixou no Limbo dos Justos, para ser colhido no dia em que Ele descerrasse as portas do Céu.

sexta-feira, 14 de março de 2014

SOLENIDADE DE SÃO JOSÉ —19 DE MARÇO

EVANGELHO SOLENIDADE DE SÃO JOSÉ —19 DE MARÇO 
Mons João Clá Dias
16 Jacó gerou José, o esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, que é chamado o Cristo. 18 A origem de Jesus Cristo foi assim: Maria, sua Mãe, estava prometida em casamento a José, e, antes de viverem juntos, Ela ficou grávida pela ação do Espírito Santo. 19 José, seu marido, era justo e, não querendo denunciá-La, resolveu abandonar Maria em segredo. 20 Enquanto José pensava nisso, eis que o Anjo do Senhor apareceu-lhe, em sonho, e lhe disse: “José, Filho de Davi, não tenhas medo de receber Maria como tua esposa, porque Ela concebeu pela ação do Espírito Santo. 21 Ela dará à luz um Filho, e tu Lhe darás o nome de Jesus, pois Ele vai salvar o seu povo dos seus pecados”. 24a Quando acordou, José fez conforme o Anjo do Senhor havia mandado (Mt 1, 1 6. 18-2 1 .24a).
Elevado a alturas inimagináveis...
Esposo de Maria, pai virginal de Jesus e Patriarca da Igreja. Estes três títulos, glorioso apanágio de São José, proclamam a grandeza de sua missão e a elevação de dons com os quais sua alma foi adornada pela Divina Providência.
UM SANTO INSUFICIENTEMENTE VENERADO
Figura ímpar, exaltada pela Igreja junto com a de Maria, nunca será suficiente louvar São José, tal a quantidade de maravilhas e privilégios com que aprouve a Deus cumulá-lo. Infelizmente este glorioso Patriarca muitas vezes é esquecido, sendo seu culto menor do que mereceria. Encontramos uma explicação para isso no desvio ocorrido nos primeiros tempos do Cristianismo com relação à devoção a Nossa Senhora. Com efeito, os fiéis admiravam tanto a grandeza d’Ela que alguns chegaram a reverenciá-La como se fosse uma deusa.1
Ensina São Tomás de Aquino 2 que toda situação intermediária, considerada a partir de um dos extremos, se parece com o oposto. E foi o que se deu com o culto à Santíssima Virgem, pois, analisada a partir de nossa condição de criaturas concebidas no pecado original, Ela parece mais perto de Deus do que de nós. A Igreja evitou esse erro mantendo certos limites nas demonstrações de piedade mariana. Só no século IV declarou o dogma da maternidade divina, definindo a participação relativa de Maria no plano da união hipostática, o mais alto grau de toda a ordem da criação, e deixou passar longos séculos para, afinal, proclamar sua Conceição Imaculada. Foi preciso, no início, fixar a adoração a Nosso Senhor Jesus Cristo para de pois estimular o amor à Mãe de Deus, ao sabor dos ritmos divinos soprados pelo Espírito Santo. Com relação a São José, não parece ser outra a razão. Talvez Nosso Senhor tenha querido que certos aspectos desse varão permanecessem ocultos para impedir que, exageradamente enaltecidos, viessem a ofuscar a figura de Cristo, pois as atenções deviam estar todas voltadas para Ele.
Não é compreensível, entretanto, que sendo Jesus o Homem-Deus, nascido de uma Mãe Imaculada, colocasse junto a Si, como pai adotivo, uma pessoa apagada, sem brilho. Portanto, se durante vinte séculos São José permanece escondido e retirado, é de se esperar que esteja chegando a hora em que a teologia explicite verdades novas a seu respeito, pelas quais se torne conhecido, com exatidão e nas suas minúcias, seu papel na Sagrada Família e a categoria de sua elevação enquanto esposo de Maria, pai de Jesus e Patriarca da Santa Igreja.
“Confirmarei sua realeza”
Na primeira leitura desta Solenidade, extraída do Segundo Livro de Samuel, a Igreja aplica a São José e, sobretudo, a Jesus Cristo as palavras dirigidas pelo Senhor a Davi, pela boca do profeta Natã. Uma vez garantida a estabilidade de seu trono, Davi tinha grande empenho em edificar um templo para Deus, pois se sentia insatisfeito pelo fato de possuir para si um bom palácio, quando para o culto divino e a custódia da Arca da Aliança ainda não existia um recinto à altura. Por isso, com a bênção divina, ele começou a fazer planos, a reunir material para as obras e preciosos elementos de ornamentação. Certo dia, o profeta Natã lhe fez saber que não seria ele quem levantaria a morada para Deus, mas um de seus filhos: “Assim fala o Senhor: ‘Quando chegar o fim dos teus dias e repousares com teus pais, então, suscitarei, depois de ti, um filho teu, e confirmarei a sua realeza. Será ele que construirá uma casa para o meu nome, e eu firmarei para sempre o seu trono real. Eu serei para ele um pai e ele será para Mim um filho. Tua casa e teu reino serão estáveis para sempre diante de Mim, e teu trono será firme para sempre” (II Sm 7, 5a.12- -14a.16).
Não há movimento mais forte na alma de um monarca do que o desejo da continuidade de sua dinastia no governo do reino após sua morte. Sem dúvida, tal era o anelo de Davi, o qual quiçá nem ousasse formular o pedido, julgando-o atrevido, a ponto de ofender a Deus. Mas Ele mesmo, tomando a iniciativa, lhe anunciou que iria estabelecer sua casa e confirmar nela a realeza, significando que não aconteceria à sua estirpe algo análogo à de Saul, primeiro soberano de Israel, que perdeu a dignidade real devido a seus múltiplos pecados (cf. I Sm 15, 23).
Ao analisarmos esta leitura, poderíamos incorrer no erro de concluir que todos os descendentes de Davi foram perfeitos... A realidade histórica, contudo, demonstra que houve inúmeras infidelidades. Apesar disso, Deus não depôs do trono sua linhagem e a manteve até o último elo, Aquele que ligou a estabilidade desse reino à eternidade, conforme sublinha o Salmo Responsorial: “Eis que a sua descendência durará eternamente” (Sl 88, 37). José faz parte desta genealogia, junto com Maria Santíssima, para dar origem a Nosso Senhor Jesus Cristo, realizando a promessa feita ao Rei-Profeta. A este pensamento, porém, poder-se-ia alegar o fato de não ser ele o verdadeiro pai de Jesus, já que não prestou concurso humano para sua concepção.
O vínculo espiritual supera o de sangue
Ora, a perenidade de uma descendência não pode estar baseada na consanguinidade, mas, sim, em algum fundamento divino que a torne eterna, ou seja, na graça. São Paulo sublima ainda mais esta ideia, na Epístola aos Romanos (4, 13.16-18.22), contemplada nesta Liturgia, lembrando as palavras de Deus a Abraão: “Eu fiz de ti pai de muitos povos” (Rm 4, 17a). Abraão é pater multarum gentium — pai de muitos povos, no respeitante à fé e não à raça. Existe, portanto, um nível superior ao natural, ao humano, uma família constituída pela fé e não pelo sangue. Insiste o Apóstolo: “Ele é pai diante de Deus, porque creu em Deus que vivifica os mortos e faz existir o que antes não existia. Contra toda a humana esperança, ele firmou-se na esperança e na fé. Assim, tornou-se pai de muitos povos, conforme lhe fora dito: ‘Assim será a tua posteridade’. Esta sua atitude de fé lhe foi creditada como justiça” (Rm 4, 17h-18.22). Em São José, por ser descendente de Davi, se cumprem todas as promessas da Aliança. Ele é pai de Jesus pela fé herdada de Abraão e por ele levada à perfeição. O vínculo existente entre ele e o Redentor é uma relação de fé.
A REALIZAÇÃO DA MAIOR MISSÃO DA HISTÓRIA
Uma posição de humildade e admiração
6 Jacó gerou José, o esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, que é chamado o Cristo. 8 A origem de Jesus Cristo foi assim: Maria, sua Mãe, estava prometida em casamento a José, e, antes de viverem juntos, Ela ficou grávida pela ação do Espírito Santo. 19 José, seu marido, era justo e, não querendo denunciá-La, resolveu abandonar Maria em segredo.
A narração de São Mateus ressalta o acima dito, pois mostra o quanto São José era íntegro e homem de fé inquebrantável diante das maiores dificuldades. Em sua alma não cabia nenhuma febricitação, exemplo para um mundo no qual se cultua a agitação e a trepidação. Com efeito, na vida dos santos tudo transcorre calma e serenamente, ainda em meio à provação. E quando são atingidos por dramas, refletem, tomam uma decisão e continuam em frente, sem perder a paz.
José “era justo”, e quando viu Maria em período de gestação não levantou qualquer suspeita em relação à pureza d’Ela, pois A conhecia a fundo e “acreditava mais na castidade de sua esposa do que naquilo que seus olhos viam, mais na graça do que na natureza”.4 No entanto, amante e cumpridor da Lei — como se reflete em outros episódios do Evangelho —, via-se ele obrigado a repudiá-La em público ou em privado, ou a denunciá-La, entregando à morte Aquela de cuja inocência tinha plena convicção. Poderia, pelo contrário, retê-La consigo, abstendo-se de acusá-La, e assumir a criança como sua, mas tal opção também não lhe agradava considerando-se indigno de sucesso tão alto e extraordinário.5 Assim, não compreendendo o que n’Ela se realizava, logo adotou uma postura de humildade e de inferioridade: entregou tudo nas mãos de Deus, aceitou a humilhação e deliberou retirar-se ocultamente, antes que se manifestasse o acontecido, como a dizer: “Domine non sum dignus”.
Estás à altura!
20 Enquanto José pensava nisso, eis que o Anjo do Senhor apareceu-lhe, em sonho, e lhe disse: “José, Filho de Davi, não tenhas medo de receber Maria como tua esposa, porque Ela concebeu pela ação do Espírito Santo”.
Já determinado a partir, transido de dor, recebeu de um Anjo a revelação: o fruto de Maria Santíssima era o próprio Deus feito Homem, e Ela seria Mãe sem deixar de ser Virgem! Quanto a ele, diferentemente do que pensava, estava, sim, à altura de sua celestial esposa, tornando-se um dos primeiros a conhecer o mistério sagrado da Encarnação do Verbo.
Serás pai do Menino
21 “Ela dará à luz um Filho, e tu lhe darás o nome de Jesus, pois Ele vai salvar o seu povo dos seus pecados”.
É difícil conceber qual foi a consolação e o arrebatamento de São José ao saber-se ligado a esse mistério e ao ouvir do Anjo o anúncio de que cabia a ele, por ser o Patriarca e o senhor da casa, dar o nome ao Menino. Da mesma forma que na geração eterna da Segunda Pessoa da Santíssima Trindade o nome foi posto por Deus Pai, ao chamá-Lo de Salvador — pois Jesus significa aquele que salva —, José Lhe assinalaria também a missão com relação a seu nascimento temporal, assumindo, por especial concessão divina, um papel humano paralelo ao do Padre Eterno. A esse propósito, comenta o piedoso padre Isidoro de Isolano: “E costume que os pais sejam os que tenham autoridade para dar o nome a seus filhos. E como Jesus era o Filho de Deus, São José fez nisto as vezes do Pai celeste. Quando os príncipes são batizados — oportunidade na qual os cristãos dão o nome a seus filhos —, quem, senão outro rei, embaixador ou alto personagem, costuma fazer as vezes dos pais na atribuição do nome? Pois em circunstância semelhante ninguém pareceu tão grato ao Pai celeste, tão digno e tão preclaro, como São José”.6 Deste modo, cumpria-se em plenitude a profecia de que o Messias seria Filho de Davi, e o seria tanto por parte do pai quanto da Mãe.7
24a Quando acordou, José fez conforme o Anjo do Senhor havia mandado.

José, obediente, recebeu Maria e passou a viver com Ela numa atmosfera de paz e tranquilidade, na expectativa do nascimento do Menino Jesus, sem, todavia, comentar nada do ocorrido, pelo enorme respeito que Lhe devotava. Mas sabia que o esperado pelos profetas, o Emanuel, o Cristo viera morar em sua casa e ele podia adorá-Lo, desde então, realmente presente no tabernáculo das entranhas puríssimas de sua virginal esposa.